Kombucha e a Psoríase

Estive lendo um interessante artigo num site brasileiro sobre psoríase* e que me pareceu bastante informativo.

*[doença de pele incurável e não contagiosa, atinge quase exclusivamente a pele – Wikipedia – link para o artigo]

A história do Kombuchá nos Estados Unidos
Data: 09/03/2004
Tópico: Tratamentos Alternativos da Psoríase

Tibetano, manchu, chinês ou japonês, 5 milhões de americanos já o adotaram. Quem ? O kombuchá, naturalmente, o cogumelo de longa vida ! Este cogumelo originário da China e desde agora produzido na Califórnia faz furor. Cultivado em chá preto açucarado, este organismo, ao modo de uma membrana de fermentação, se reproduz indefinidamente desdobrando-se. Consumida diariamente, esta tisana seria eficaz para resolver numerosos problemas de saúde.

Isto não lembra nada a nossos contemporâneos dos anos 50 ? O “hongo” estava na moda e milhares de pessoas cultivavam este cogumelo ora chinês, ora japonês que passava por ser um remédio milagroso capaz de resolver quantidades de problemas de saúde e doenças crônicas da época (em particular a tuberculose).
Esquecido durante longos anos, eis o que ele se tornou nos Estados Unidos.

Em 1992, Tom Valentine jornalista da revista “Search for Health Magazine” editada na Flórida publica um artigo ditirâmbico celebrando as propriedades singulares deste cogumelo. Este ajudaria o organismo a combater o câncer, a aids, seria também eficaz contra a gripe, a artrite, o stress, a fadiga crônica, a constipação, a diarréia, a indigestão, os problemas de próstata, a incontinência, as hemorróidas, a síndrome pré-menstrual, os sintomas da menopausa, as doenças de pele, as rugas, a acne, a psoríase, a impotência sexual e ainda favoreceria o crescimento dos cabelos e seu enegrecimento ! Hoje este cogumelo exótico colonizou a América. Toda família “new age” da Califórnia e de outras partes possui pelo menos um exemplar em casa. Ela o cultiva com amor no chá açucarado, lhe fala, o faz escutar música, o faz reproduzir-se. Com efeito, os kombuchás fazem bebês a cada dez dias e em três meses, uma “mãe” conta numerosos descendentes. Também, encontram-se mesmo firmas de kombuchá que vendem os bebês por até 70 dólares por peça. Os usuários, eles bebem três vezes por dia esta tisana e afirmam reencontrar vigor, e acessoriamente para alguns, curar câncer e aids. Pareceria que Reagan cuidaria do seu graças a esta divina beberagem. Inquieta pela amplitude do fenômeno e da publicidade feita às virtudes supostas do kombuchá, a FDA (administração americana da saúde) se interessou em março de 1955 por esta bebida e publicou um comunicado explicando que ela era o resultado da fermentação de numerosas leveduras e bactérias e que ela continha grandes quantidades de ácidos que se encontram geralmente no vinagre e no álcool etílico. Para a FDA, se a fermentação se desenvolve em meio estéril, o produto não é nocivo para a saúde, também existem médicos que se lançaram em pesquisas sobre os princípios ativos desta bebida e preconizaram curas deste chá fermentado a seus pacientes cancerosos ou aidéticos.

De fato, do que se trata ?
O cogumelo se parece a uma gelatina viscosa de uma vintena de centímetros de diâmetro e de um centímetro de espessura. Posta em cultura num recipiente de vidro contendo chá açucarado e recoberto de um pano de algodão a mãe se desdobra naturalmente ao cabo de uma semana. Para obter este elixir de longa vida, é necessário respeitar um ritual preciso do qual eis o essencial :

Coloque três litros de água numa cassarola de Pyrex ou esmaltada. Quando a água ferve, despeje entre 150 e 300 gramas de açúcar (branco ou escuro. Deixe ferver por 10 minutos depois retire a cassarola do fogo. Junte 4 ou 5 saquinhos de chá preto. Cubra e deixe infundir durante 15 minutos. Tire os saquinhos com uma colher de pau. Deixe repousar o chá até que esteja na temperatura ambiente. Uma vez esfriado, despeje o chá num recipiente de vidro com uma grande abertura, depois deposite suavemente o cogumelo dentro do recipiente contendo o chá, o lado liso para cima. Cubra o recipiente com gaze ou um pano de algodão. Não utilize sobretudo tampa de metal. Deixe crescer o cogumelo, sem agitação, durante 7 dias pelo menos, à temperatura ambiente, afastado da luz do sol. Durante este tempo, êle se propagará e formará um outro cogumelo. Sua circunferência será da mesma forma que o recipiente no qual cresce. Ao fim de 7 dias, você terá 2 cogumelos, o primeiro (a mãe) e seu duplo ( o bebê). Êles têm o aspecto de gelatinas cinza-bege e êles se separam sem problema. O líquido no recipiente é o chá que você vai beber. Êle tem um gosto agradável semelhante a uma sidra agridoce. Filtre este líquido e coloque-o em garrafas de vidro. Conserve esta bebida no refrigerador. Cada manhã, em jejum, beba 1 copo (cerca de 100 ml) do chá.
As livrarias americanas estão cheias de livros sobre este fenômeno. Livros de receita para preparar sua própria tisana até obras pseudo-científicas, todos apresentam as origens misteriosas deste cogumelo manchu de 2000 anos e retraçam sua viagem extraordinária ao ser passado de geração em geração na ásia, êle acaba por aterrissar em Hollywood graças a Tom Valentine.

Diante deste fenômeno de ultramar, nossa imprensa nacional(França) por êle se interessou, assim pudemos ler no Le Nouvel Observateur (Junho de 1995), VSD (Julho de1995), Voici (Julho de 1995), Avantages (Novembro de 1995) vários artigos sobre o assunto, mas nenhum jornalista sabia que o kombuchá teve sua hora de glória na França durante os anos 50. É verdade que êle ostentava naquela época um outro nome !

Retorno aos anos 1950
Cogumelo-milagre, cogumelo da caridade, cogumelo de longa vida, cogumelo chinês ou japonês, Hongo ou Ma-Gu….. e quantos outros nomes ainda designando este cogumelo do chá.

Êle não é tão desconhecido porque no momento, todo mundo fala dele, como da panacéia universal, depois bruscamente êle cai no esquecimento. Depois do Japão e da Manchúria onde êle é citado em escritos datando do ano 221 antes de J.C., êle passa à Ïndia e à China, aparece em seguida na Europa em três vagas sucessivas. Primeiro, de 1913 a 1918, é utilizado nos países bálticos, na Rússia e na Polônia (onde a tisana é chamada kwas de chá). Depois, de 1925 a 1930, êle aparece na Dinamarca, na Alemanha, na Tchecoslováquia e na Romênia. Nesta época, aparecem a seu respeito numerosos artigos científicos em particular da Universidade Alemã de Praga e na Alemanha surgem numerosas publicidades comerciais. É utilizado, não somente como bebida refrescante, mas também como medicamento, sob nomes diversos.
Após a segunda guerra mundial, este chá fermentado foi levado da Alemanha pelos prisioneiros de guerra e assim apareceu na Europa Ocidental (França, Itália, Espanha e Suiça). Um artigo da Imprensa Médica de 1953 cita um médico da faculdade de Madri (F.O Rodriguez) que introduziu “em medicina popular o meio de cultura (infusão de chá açucarado) de um pretenso cogumelo medicinal que êle denominou ‘el hongo'”.

Este cogumelo foi examinado por H. Roques, autor do artigo, que colocou em evidência uma levedura (Saccharomyces), uma bactéria acética (Acetobacter) e uma falsa levedura (Mycoderma vini); êle mostrou assim que não se tratava de um cogumelo superior nem de uma membrana de fermentação mas de uma colônia gelatinosa de cogumelos microscópicos constituindo uma associação simbiótica. Para H. Roques, não havia dúvida que o Acetobacter era o agente essencial da ação terapêutica, êle agiria por seus produtos de elaboração, em particular as enzimas oxidantes que êle secreta, sendo que tais moléculas são susceptíveis de agir no organismo aumentando a eliminanção dos dejetos e das toxinas. Segundo H. Roques, o “hongo” podia ser classificado no grupo dos medicamentos chamados depurativos, seu uso parecendo isento de toxicidade.

A moda do “hongo” chegou mesmo à áfrica do Norte francófona onde ela suscitou a curiosidade de pesquisadores porque no mesmo ano, em 1953, apareciam no Boletim da Sociedade das Ciências Físicas e Naturais do Marrocos, dois artigos assinados por M. Chambionnat e G. Zottner concernentes ao famoso “cogumelo japonês”. G. Zottner confirma a presença de um Acetobacter na massa gelatinosa. Êle acha este vinagre de chá rico em vitaminas e, se tomado moderadamente, não perigoso para a saúde. M. Chambionnat procedeu a análises químicas e encontrou ácido acético, também presente no vinagre, ácido láctico (que se encontra nos iogurtes ou no quefir) e álcool etílico, êle contestou o valor terapêutico do produto, não vendo um interesse a não ser em seu aporte de vitaminas. M. Chambionnat refutou sobretudo a presença de um antibiótico que teria sido ativo contra o bacilo tuberculoso. Êle pensava que a atribuição de virtudes antibióticas ao cogumelo japonês provinha de uma dupla confusão : primeiro a aproximação da palavra cogumelo com mofo depois com Penicillium e enfim com penicilina, em consequência dos trabalhos de S.A. Waksman (Prêmio Nobel de Medecina em 1952) que cultivava um mofo chamado Aspergillus clavatus sobre chá agridoce para fazê-lo produzir clavacina que é um bactericida poderoso. É muito possível que este antibiótico fosse tomado à época por uma secreção do cogumelo japonês. Existe, no entanto, uma vasta literatura científica russa datando desta mesma época (1945-1960) que trata das virtudes antibióticas do cogumelo do chá. Infelizmente, estes resultados não sairam da Rússia.

Em 1959, um artigo de M.M. Kraft da Universidade de Lausanne confirma o impulso suscitado por este cogumelo na Europa Ocidental. Este artigo nos indica que em Bilbao, uma empresa de produtos farmacêuticos comercializa cogumelo, que em Tulle en Corrèze, se fabrica uma espécie de “chá-sidra” muito apreciado, enfim que em Lausanne, é encontrado na farmácia. Michel Abadie do Museu Nacional de História Natural empreendeu, no começo dos anos 60, trabalhos em seu Laboratório de Criptogamia de Paris, trabalhos estes que se dirigiram essencialmente sobre a associação dos diferentes microorganismos que constituem o cogumelo. Um de seus artigos aparecidos em 1961 nos Anais das Ciências Naturais e Botânica conclui sobre a necessidade de facilitar “os estudos de um poder terapêutico e antibiótico atualmente tão controvertido”. Este foi um dos últimos artigos científicos em francês sobre o cogumelo chinês.

Nos anos que seguiram (60-80), artigos científicos sobre o cogumelo do chá apareceram no Japão, na Coréia, nas Filipinas e na China, o que mostra que pesquisadores continuaram a se interessar por êle e sobretudo em pesquisar nele virtudes terapêuticas, em particular contra o câncer. Mas a Europa Ocidental se desinteressou com exceção da Alemanha e a Suiça alemânica onde o Doutor Sklenar desenvolveu nos anos 60-70 uma terapia anticancerosa a partir do cogumelo do chá que êle denominava “kombuchá” (este método terapêutico foi aliás contestado na Suiça mesmo). Quanto ao que concerne a estes dois países, se desenvolveram empresas que comercializam o cogumelo assim como diversas preparações (frascos de chá, extrato alcoólico, gotas).
Assinalam-se alguns trabalhos científicos sobre o cogumelo do chá ao final dos anos 80 na Alemanha e no início dos anos 90 no Brasil (onde é utilizado para cuidar de peles queimadas). A obra de referência sobre o cogumelo do chá foi escrita em 1990 por um alemão, Günther W. Frank : “Kombuchá, a bebida do cogumelo de longa vida”. Ela existe em três línguas (alemão, inglês, francês) e é lida por todos os americanos adeptos deste cogumelo.
Hoje, diante do ímpeto dos americanos pelo que agora se chama kombuchá, pesquisas científicas são empreendidas nos Estados Unidos e na França para confirmar graças a meios de análise modernos a presença de moléculas ativas na bebida fermentada. O futuro nos dirá o que vai acontecer.

Qual é seu efeito medicinal ?
Segundo um médico americano citado pelo semanário VSD : “todos os produtos fermentados têm tendência a favorecer as bactérias sãs nos intestinos. Além disto, as enzimas são catalisadores biológicos dos quais necessitamos para digerir os alimentos, para dissociar as proteinas e as gorduras no processo de digestão. Quando a digestão de alguém não funciona mais, todas as outras funções do corpo seguem. De fato, os benefícios do chá, como a energia, a melhoria da pele podem ser colocados na conta de uma melhor digestão. Além disto, quando a gente reencontra uma digestão normal, o semblante se distende, um semblante mais distendido, significa talvez menos rugas”.

BIBLIOGRAFIA
Abadie, M.: 1961. Associação de Candida mycoderma Reess Lodder e de Acetobacter xylinum Brown na fermentação acética das infusões de chá. Ann. Sc. Nat. Bot. 12, 765-780.
Chambionnat, M.: 1953. Contribuição ao estudo do cogumelo japonês. Bull. Soc. Sci. Nat. Phys. Maroc. 33, 3-8.
Dubois, J.P.: 1995. Estados Unidos, um cogumelo na cabeça. Le Nouvel observateur. 8-14 Juin 1995, 92-94
Dubois, V.: 1995. Ya bon kombucha. VSD. 934, 82-85.
Frank, G.W.: 1990. Kombuchá, a bebida do cogumelo de longa vida, W. Ennsthaler ed. Steyr, Autriche.
Hauser, S.P.: 1990. A infusão de cogumelo kombuchá do Dr. Sklenar – uma terapia biológica do câncer. Schweiz Rundsch. Med. Prax. 79, 243-246.
Kraft, M.M.: 1959. O cogumelo do chá. Nova Hedwigia. 1, 297-304.
Reiss, J.: 1987. O cogumelo do chá e seus produtos metabólicos. D. Lebensmittel-Rundschau. 83, 9, 286-290.
Roques, H.: 1953. Sobre um pretenso cogumelo medicinal (el Hongo). Presse Médicale. 61, 29, 621.
Zottner, G.: 1953. Nota de bacteriologia a propósito do cogumelo japonês. Bull. Soc. Sci. Nat. Phys. Maroc. 33, 9-11.

O autor deste artigo:
Dr. Philippe J. BLANC
DGBA UMR-CNRS 5504, INSA
Complexe Scientifique de Rangueil, F-31077 TOULOUSE Cedex 04
tel. 33 61559413 fax. 33 61559400
CE (correio eletrônico): blanc@insa-tlse.fr ”

Artigo reproduzido do endereço
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